Eu, Diana Bernardes

13-09-2022

Um dia disseram-me que eu sabia viver bem. Assim. Esse foi o maior elogio que alguma vez recebi. Foi um conforto que me uniu muito. É assim que consigo explicar, um conforto que me uniu muito.

Por um lado, sei que sim. Eu sei que fazer o que me apetece ao meu cabelo, é o certo. Sei que demonstrar carinho aos meus amigos, é o certo. Sei que não há tempo nem pressão para fumar, beber, dar o primeiro beijo, ou para fazer amor. Em mim, não.

Talvez por isso, por olhar mais para dentro do que para fora sempre fui realmente intensa. Amava muito, era muito feliz, era alegre e brincalhona ao mesmo tempo que quando morria alguém parecia o fim do mundo, aliás, era o fim do mundo. Quando sofria, parecia o fim do mundo. Tudo era uma intensidade louca. Vivia as emoções de uma forma tão intensa que me cansei. Se foi pela idade, não sei. Comecei a desejar ter paz, estar mais calma, ter as emoções mais equilibradas.

Durante muito tempo não compreendia as pessoas que não sabiam dizer não, as pessoas que preferiam magoar-se a si em vez de serem sinceras com os outros, pessoas que faziam e diziam coisas que não concordavam...

Até ser professora e sentir a responsabilidade de ser um exemplo... dei por mim a ser professora 24h sem despir esse papel, e digo-vos, era muito cansativo. Não era eu.

Quando engravidei senti muito medo durante a gravidez. A tensão baixa provocava-me sensações de insegurança. A gravidez de risco obrigou-me a parar. Mas eu não sabia parar. Só aos sete meses comecei a adorar estar grávida e a conseguir desfrutar dessa fase. Algo em mim mudou muito. Tive medo das críticas, tive medo de não conseguir, medo de... queria ser perfeita! Queria dar conta da casa, de mim, do cão, da gata, do meu trabalho, do meu companheiro e da minha bebé. Felizmente consegui partilhar muito, pedir ajuda, chorar, pedir colo, pedir o que queria, necessitava e ainda o que desejava.  

A determinada altura dei-me conta disso, que queria ser perfeita, e ri-me comigo dessa estupidez. Comecei por perguntar ao meu companheiro se ele me amava mais por a casa estar sempre tão arrumada e limpa. Depois questionava-o, "preferes que vá fazer "não sei o quê" ou que me deite contigo aí no sofá?" E adivinhem... ele preferia SEMPRE a minha companhia. Sentava-me com ele, ou ele vinha ajudar-me a fazer o que tinha de ser feito. 

Mesmo assim, ainda há uma parte de mim que deseja aquela miúda relaxada, que se sentava em qualquer lado quando estava cansada, que dizia ao mundo inteiro que amava, que largava tudo e ia passear à serra, que tinha tempos mortos, etc. Mas há aqui dentro de mim um outro alguém também, uma outra parte de mim que ainda estou a aprender a relaxar sendo ela.

É um jogo diário entender afinal qual é a minha essência. O que é o meu ego, quais são os medos das críticas da sociedade, o que é a preguiça, o que é a responsabilidade, o desejo ou o compromisso? Como se gere isto tudo diariamente? 


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